T2EP07 - Isaías Miliano - Artivismo em tempos de guerra.

February 28
1h 21m

Episode Description

Rumi, um poeta sufi, uma vez me disse: Deixe os bêbados bêbados e que os sóbrios tomem conta do mundo. Assim é Isaías Miliano, o artista do inebriamento, da sensibilidade, da fragilidade do encantamento, da simplicidade; o academicismo, a seriedade, o quadrado, o cartesiano não lhe apetecem. Isaías está em busca do maleável, do suscetível, dos rios tortuosos, dos peixes esguios.

Isaías Miliano já foi tudo, já foi hippie, já foi marinheiro, já foi pescador, já foi professor, já foi mochileiro. Isaías Miliano é artista, Isaías Miliano é indígena, Patamona, do Uiramutã, nasceu na Serra do Mutum, entre os jardins de Macunaima, quem esticar um pouco as pernas pro outro lado, Serra do Macaco ou Monkey Mountain, Guiana Inglesa, zona fronteiriça, zona de disputa.

Isaías me contou Roraima, terra do caju grande, o interior do Caribe, o paraíso perdido, idílico, onírico, zona de conflito, zona de cobiça, zona de perigo. Realismos fantásticos, o lavrado, as serras, o cajueiro, as icamiabas, a muiraquitã, as caimbés, os matrinxãs, a damorida, a pimenta, o pium, o Caxiri de batata doce de sua mãe Teresa Patamona, as maracas do pajé. Um pajé com nome de profeta, um lema: o pajé está sempre pronto para salvar alguém.

Tão rica experiência de vida se reproduz em sua obra: os painéis entalhados em três dimensões de profundidade, as esculturas, os quadros temáticos, as instalações, os colares, os instrumentos.

O angelim, o cedro doce, a cera de carnaúba, o formão, o picão. Ferramenta e matéria nas hábeis mãos do artesão, saber o momento da força, o momento do cuidado, o momento da força com cuidado, a maestria. O seu estilo pictórico e seu entalhe trazem para dentro da arte contemporânea as inscrições na Pedra Pintada, os achados arqueológicos de Roraima, a arte rupestre, os tribais. Nenhum traço é em vão, todo elemento em sua obra te embebeda de xamanismo, ancestralidade e representatividade indígena. A arte é uma brincadeira levada a sério.

Isaías é filho da antropofagia pós moderna, em um mundo globalizado e mecanicista, Isaías Miliano imprime as marcas de seu povo, marcas invisibilizadas pela colonização ou revisitadas pelos estudos arqueológicos, ganhando vida nas mãos do artista. Entre os dois mundos Isaías é ágil, versátil e íntegro com sua história e com sua origem. A madeira bruta a mercê de sua sensibilidade, o resultado não poderia ser mais original.


Texto: Manatit

Este projeto é uma realização das produtoras Sem Início Sem Fim e Outro Acontecimento em conjunto com o Governo Federal com financiamento do Pró Cultura RS através do Plano Nacional Aldir Blanc

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