Episode Description
Essa é uma história que a gente não gostaria de ter quer contar. A mãe da Ale nasceu na roça, primeira filha de dois avós negros presos a um trabalho sem salário, apenas pela promessa de um teto sem conforto.
Ela viu o pai sair para trabalhar e não voltar. Depois viu a mãe sair para tentar um recomeço e achou que também nunca mais a veria.
Quando engravidou, foi expulsa sem nem poder pegar as próprias roupas e partiu para São Paulo com o namorado, levando uma mala só e um enxoval pequeno. Ele saiu dizendo que buscaria um lugar melhor e nunca mais voltou também.
Ela sobreviveu ajudando feirantes em troca de comida, conheceu o pai de Ale, teve filhos, viveu perdas cedo demais e, mesmo sem ter aprendido a ler, amava livros.
A Mãe da Ale costurava enquanto a filha lia em voz alta. Nos fins de semana chuvosos, a casa virava abrigo: o som da máquina, a voz da filha, e uma risada que parecia desafiar a vida.
Aos 75 anos, ela já se confundia às vezes, mas seguia fazendo tudo. Até o dia em que foi para uma excursão com seus amigos de anos da igreja e não voltou para casa.
As pessoas da excursão disseram que na parada, quando todos retornaram para o ônibus, ela não estava mais lá. E essas pessoas deixaram para a família o impossível: saber por onde começar. Não houve ajuda.
As câmeras da parada mostraram a mãe de Ale descendo junto com as outras pessoas, depois se afastando devagar, sendo engolida pela multidão… Depois, nada.
Ale transformou a revolta em busca, principalmente quando encontrou a mãe, que havia sido encontrada 7km de distância o local, atropelada.
A situação foi tão grave que ela não pôde sequer reconhecer o corpo, que havia sido reconhecido pelos peritos pelas digitais.
Para a Ale, a dor maior não foi só a perda, mas a indiferença nessa situação. As pessoas da excursão, amigos de anos da família, sequer foram no enterro. Não rezaram uma Ave Maria.
Hoje, a Ale carrega a mãe nas lembranças, na coragem e na decisão de contar essa história atrás de respostas.