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A MEDICINA COMO CIÊNCIA

Sep 30, 2020
14 mins

Episode Description

Mesmo em seus melhores momentos, a prática médica pré-moderna não salvou muita gente. Hipócrates de Cós, o pai da Medicina, é celebrado sobretudo por seus esforços para arrancar a Medicina do terreno da superstição e trazê-la à luz da Ciência.
Hipócrates escreveu:
"Os homens acham a epilepsia divina, simplesmente porque não a compreendem. Mas se chamassem de divino tudo o que não compreendem, ora, as coisas divinas não teriam fim".
Em vez de reconhecer que em muitas áreas somos ignorantes, a tendência do homem comum é atribuir a divindades tudo aquilo que ainda não compreendemos.

Como o conhecimento da Medicina tem se desenvolvido desde o século IV a.C., cada vez mais aumenta o que compreendemos e diminui o que tinha de ser atribuído à intervenção divina - a respeito das causas ou do tratamento da doença.

As mortes na hora do parto e a mortalidade infantil decresceram, o tempo de vida foi prolongado, e a Medicina melhorou a qualidade de vida para bilhões de seres humanos em todo o planeta.

Hipócrates introduziu elementos do método científico no diagnóstico da doença. Ele recomendava com insistência a observação cuidadosa e meticulosa:

"Não deixem nada ao acaso. Não percam nenhum detalhe. Combinem as observações contraditórias. Não tenham pressa".

Antes da invenção do termômetro, ele fez o gráfico das curvas de temperatura de muitas doenças.


Recomendava que os médicos fossem capazes de explicar, somente a partir dos sintomas presentes, o provável desenvolvimento passado e futuro de cada doença. Enfatizava a honestidade.
Estava disposto a admitir as limitações do conhecimento médico.
Não se envergonhava de contar para a posteridade que mais da metade de seus pacientes morrera das doenças que ele estava tratando.
Suas opções de ação eram limitadas; os remédios de que dispunha eram principalmente laxantes, eméticos e narcóticos.
Realizavam-se cirurgias e cauterização.
Outros progressos consideráveis ainda foram feitos em toda a época clássica, até a queda de Roma.

Enquanto a Medicina floresceu no mundo islâmico, o que se seguiu na Europa foi na realidade uma era negra. Grande parte do conhecimento de anatomia e cirurgia se perdeu.
Era muito difundido o recurso às orações e às curas milagrosas. Os médicos seculares foram extintos.

Empregavam-se por toda parte cantilenas, poções, horóscopos e amuletos.

As dissecações de cadáveres foram restringidas ou proscritas, por isso aqueles que praticavam a Medicina não podiam adquirir em primeira mão o conhecimento do corpo humano. A pesquisa médica ficou estagnada.

Uma situação muito parecida com ocorreu para todo o Império do Oriente, cuja capital era Constantinopla:

Num período de dez séculos, nem uma única descoberta foi feita para exaltar a dignidade ou promover a felicidade da humanidade.
Nem uma única ideia foi acrescentada aos sistemas especulativos da Antiguidade, e uma série de discípulos pacientes se transformava, por sua vez, nos professores dogmáticos da geração servil seguinte.

Mesmo em seus melhores momentos, a prática médica pré-moderna não salvou muita gente.


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